domingo, 7 de fevereiro de 2010

qualquer coisa

A cidade acolhe generosamente os seus filhos.
Como uma puta,
ela mente que os ama.
Em vez de abraços
dá a calçada fria.

Bagé é comum
Tem praça-igreja-cartório-cemitério.
Ela só é imensa
porque aonde eu vou
ela vai atrás

Não leve ao pé da letra
o que eu digo.
É melhor tomar cuidado
também com as pernas.
Em doses diárias
o que eu digo pode servir
como veneno.

isso porque quando olho para a noite
ela me convida
cada estrela parece uma outra vida
distante dessa vida sem vida.

Assim sou o que aparento ser
mas não confunda o cú com as calças
Nem toda minha tristeza é uma bosta
nem toda minha alegria é uma valsa

Porque não nasci para a gravata.
Se tiver que viver preso
Prefiro estrangular apenas
Meu dedo.

E fora o que disse antes,
talvez seja capricho.
O fato de querer bancar o durão
é ter na cabeça
a íntima sentença
de que ser homem
é estar sempre duro.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Preconceito social: a violência cotidiana

Uma das coisas mais repugnantes é o preconceito seja ele de gênero, cor ou classe social. O interessante é que vivemos numa sociedade hipócrita e estabelecida cada vez mais sob as algemas do preconceito. Já escrevi no “Baú” sobre diversos temas relacionados. Muitas vezes abordei o preconceito – algo que realmente me tira do sério e faz com que algumas teorias pessoais não sejam apenas ataques preconceituosos aos “bons de vida”, mas, sim, afirmativas que apontam que vivemos uma espécie de guerra silenciosa. De um lado todos aqueles que julgam os outros de alguma forma e em outro canto as pessoas que lutam contra esse tipo de covardia.

Quando você lê que pessoas debocham da miséria alheia e festejam felizes em festas glamourosas, cujo ingresso custa R$ 400, dá uma sensação estranha de que o projeto de sociedade falhou. È uma barbárie engomada pela publicidade que nos acomete diariamente pela alienação que deixa a grande massa passiva a esses absurdos cometidos por uma minoria - na maioria das vezes sustentada pelo sacrifício de milhares em trabalhos e condições de escravidão social. Porém, quem realmente se importa?

Vivemos num país de terceiro mundo que estende seu poder econômico e político como o de qualquer outra nação imperialista. Nós somos os EUA abaixo da linha do Equador. Devemos dar salvas para a ajuda militar no Haiti, mas até que ponto as intenções são de ajuda entre “irmãos pobres”? Porém, o que me irrita é saber que o Haiti é apenas pauta midiática, cuja sensação de caos faz com que pensemos em como somos privilegiados em ser a terra da Copa e da Olimpíada. Uma estatística que não nos diz nada, afinal nos anos 90 alguém realmente se importou com os massacres na Bósnia ou a violência tribal cometida nos países africanos?

Eu conheço diversas pessoas que jamais falaram ou leram sobre o Haiti, mas agora como um símbolo de status regido pela égide dos mass media, demonstram um sentimento assistencialista de levar as lágrimas os mais inocentes. Proferem discursos inflamados sobre o caos que a humanidade está causando pelos sucessivos ataques à natureza, porém são os primeiros a usar de todos os subterfúgios materialistas que poluem e devastam ainda mais o planeta. Quem destrói o meio ambiente são os outros, não nossos amigos que vivem num estado selvagem do capitalismo, onde o mais é sempre mais e é sempre melhor. Portanto, quando surgir toda essa baboseira de caridade burguesa, não se comova: é farsa assistencialista para que as consciências mais caras possam dormir bem.

O burguês quando demonstra tristeza e dor perante o sofrimento alheio o faz apenas para esconder o real sentimento de auto-impotência em mudar a realidade que acomete a grande maioria das pessoas no planeta. Um planeta selvagem e caótico e que tanto foi explorado para a satisfação de uma pequena parcela de atores sociais, que usam a justificativa de produção e evolução para consolidar uma disparidade que não pode ser ressaltada com dados históricos ou jamais alterada porque isso seria “utopia”. Tudo que parte para uma melhoria social é chamado de utopia. É fácil fomentar um sistema que se apóia na miséria de milhões, afinal os “formadores de opinião” defendem tal posicionamento como democracia, mas que democracia é essa que humilha trabalhadores em filas de hospitais; mata centenas pela crise na segurança pública e prostitui crianças em troca de comida? E não adianta as campanhas publicitárias enaltecerem um discurso de que é necessária a união entre todos para combater os males da sociedade moderna. Isso soa como enganação para construir uma falsa conscientização de empresas e mídia para a sociedade em geral.

Você acha que a campanha contra o crack foi realizada porque é um mal social que destrói todas as camadas da sociedade, ou apenas tornou-se um discurso midiático quando afetou a classe média alta e a elite, ou seja, quando os “filhinhos de papai” trocaram o álcool e as festas no litoral para uma bocada escura da capital para fumarem pedras como os sujos “mendigos” e “vagabundos” das grandes cidades?

É essa deformação social que faz com que eu persiga alguns ideais. O brabo é que sou julgado quanto a isso. Quantas vezes eu tenho que diminuir a intensidade da minha fala e escrita porque alguém se sente ofendido. E o pior: ficam ofendidos sem nunca discutirem o assunto comigo. Sabe quando o chapéu serve? Pois bem, quem se sente ofendido com minha prosa é porque é familiarizado com meus objetos de crítica. Como todo burguês, eles são tomados por uma grande covardia. Julgam meus textos e meus posicionamentos porque os escritos “ofendem” a classe social que habitam. Isso só demonstra que minhas ideias são cada vez mais relevantes e que eu devo seguir apontando a crítica para os “intocáveis”.

Nessas três décadas de vida eu já passei por alguns atos de preconceito social. Sei como é ser julgado pela roupa que visto, pela escola que estudei, pela rua onde moro, ou por não ter emprego, carro e outros símbolos de status de uma sociedade vazia em conceitos e enraizada em tradições ridículas.

Eu vivo numa cidade onde a maioria das pessoas nem imagina quem foi Torquato Neto ou Paulo Leminski e se você mostrar uma foto de tais autores, a grande massa vai ridicularizar esses poetas. A ignorância foi institucionalizada na minha terra.
Vivo num lugar onde a base intelectual varia entre marcas de carro e roupas de grife. Eu fui vítima e ainda sou vítima dessa palhaçada.

Aqui um homem é valorizado pelas roupas e pelo carro que tem. Mesmo que digam o contrário, todos sabemos que é assim. Quem não se enquadrar no perfil de estar circulando em festinhas babacas ou subindo e descendo a avenida principal, não é alguém digno para os padrões locais.


Se eu tenho a vontade de criticar aquilo que me rodeia, isso parte de uma grande indignação com toda a miséria cultural vendida como norma e padrão em minha sociedade. Nunca critico as pessoas, nem dou nome aos bois. A maioria é vítima do sistema familiar, da escola, do círculo burguês de amizades, enfim, de todos os aparelhos ideológicos que estruturam tal personalidade reprodutora de conceitos fascistas.

Numa cidade do interior e, culturalmente atrasada, é notório que o preconceito social seria fundamentado como tradição histórica. Porém, algumas vidraças devem ser quebradas e eu batalho por isso.

Agora, quando alguém se diz ofendido por algum texto ou ação que eu tenha realizado deveria, no mínimo, ter debatido sobre o que lhe ofendia. Nunca cometi tal imprudência de ofender alguém ou praticar injúrias, sem ter motivação para tal. Se eu critico, critico é o sistema, e tenho base pessoal e profissional para tanto. Já fui acometido de preconceito inúmeras vezes. Contudo, o que não me matou, apenas deu-me forças para definir minha identidade e meu ideal de vida e de profissão. Morro pobre, mas morro com meus ideais!

Já sofri por demais preconceito e, de certa forma, cometi alguns erros com minhas ideias, mas como dizem: “guerra é guerra”. Agora o que não suporto é quando usam meus textos para justificar determinada acusação. Isso é covardia! Ninguém muda, a respeito de uma pessoa, por causa de um mero texto. As pessoas mudam a opinião sobre determinada pessoa ou porque são influenciadas pelo meio, ou porque já trazem consigo alguns pré-conceitos que vão à tona à determinada ocasião.

Não discutir o assunto, nem dar chances para o debate, é apenas a confirmação do preconceito. Pontuar isso com o silêncio é mais vil e perigoso, porque apenas traduz que as opiniões estavam certas: existe sim o preconceito social e ele está cada vez mais próximo!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Jornal de SC define qual é o “padrão ideal” para quem busca emprego

Recentemente eu ganhei um exemplar do jornal Hora de Santa Catarina e presenciei, nas páginas do diário, um caso explícito de jornalismo feito com preconceito. O jornal é do Grupo RBS e trata-se de uma versão catarinense do Diário Gaúcho. O padrão é o mesmo do jornal gaúcho com muitas páginas coloridas numa diagramação que contém textos curtos, mas com várias fotos e boxes que “facilitam” a leitura de quem consome informação; além disso, o Hora de Santa Catarina conta com os recursos típicos dos “jornais de centavos”: páginas internas com fotos de “celebridades” em trajes sumários e um enfoque em assuntos como futebol e segurança. Contudo, o que chamou a minha atenção foi o texto escrito por um tal “Dr. Trabalho”. O colunista não tem o nome publicado, apenas uma caricatura, e na edição conjugada do dia 09/10 de janeiro, o autor escreveu um pequeno texto sem título e que irei reproduzir neste espaço.

Argolões

A roupa, os gestos, o modo de agir, tudo, tudo mesmo revela se a pessoa é ou motivada para o crescimento, se ela tem objetivos definidos por que lutar. Você olha para o modo como os colegas saem de casa para ir ao trabalho e nada mais é preciso ver para fazer o diagnóstico: não irão longe, não têm futuro.
Uma pessoa que se preza, vê-se como produto, trata-se, cuida-se como um produto. E os produtos são cuidados a partir da embalagem, do envólucro. Ontem na tevê apareceu uma mulher que andava a procurar por emprego, currículo debaixo do braço. Pelo visual, podes desistir, companheira, não vais arrumar nada. Nas orelhas ela tinha argolões e nos braços tatuagens. Só louco emprega um tipo atirado desses. E adianta dizer?

Tolos

Os trouxas costumam dizer que na vida deles mandam eles, vestem-se como querem e tatuam o corpo nas partes onde bem entenderem. Ok, sem problemas. Mas no emprego quem manda é o empregador, ele é quem faz as leis, e seleciona quem bem entender. E os sujos não têm chances. Não devem ter.

Virtudes

Autoridade não é quem tem cargo especial num governo e tampouco dinheiro no banco. Só há um tipo de autoridade: quem tem competência e é honrado. Só assim. E no trabalho quem tem essas virtudes é mais que autoridade, é rei.”


Exemplo de jornalismo preconceituoso

O texto publicado na página seis do jornal Hora de Santa Catarina causa espanto pelo alto teor preconceituoso. Feito com a pior forma de jornalismo - aquele que apenas produz e reproduz estereótipos - o cidadão que não assina o texto atenta, com suas palavras, a inteligência dos leitores e faz uso de um discurso reacionário, intolerante e fascista. Lembra muito a ideologia totalitária dos nazistas que na ânsia de reger uma sociedade homogênea pretendiam exterminar todos àqueles que não fossem arianos.

No caso do colunista, ele entende que a sociedade ideal deveria contar apenas com homens que pensam e agem como produtos. Nesse universo “fascista-publicitário”, para ele, o homem é apenas um produto. O cidadão que deseja obter emprego deve ser homogêneo, sem alternativas para valorizar qualquer característica estética que o diferencie dos demais. Na sociedade sem direito à liberdade de expressão, idealizada pelo colunista, traços de personalidade, modo de agir e a roupa, classificam os homens, definindo se eles têm chances ou não de produzir/trabalhar em sociedade.

Para ele, quem não se enquadra nessas características e, mesmo tendo a competência como atributo, deve pagar com a exclusão social, afinal, como ele mesmo ressalta, ao destacar a moça que usava argolões e tinha tatuagens, ela jamais terá chance e nem direito à oportunidade de trabalho, tudo porque usa brincos e tatuagens. “Pelo visual, pode desistir, companheira, não vais arrumar nada [...] Só louco emprega um tipo atirado desses”.

O Dr. Trabalho adianta que a sociedade é divida entre “limpos” e “sujos”. Os limpos são todos aqueles que se enquadram nas características homogêneas que o colunista adianta serem as máximas para quem merece uma oportunidade de emprego. Todavia, os sujos são as pessoas que gostam de usar adornos em sua roupa ou pele; cabelos que não atendem as normas exigidas nos manuais ditatoriais da área de Recursos Humanos; nem tampouco pretende viver uma vida “fotocópia” de outros indivíduos, mesmo que nós entendemos que qualquer cidadão, sempre respeitando as normas de convívio, pode vestir-se da forma que lhe agrade.

Em relação ao Dr. Trabalho, ele deve ter algum recalque quanto ao uso de roupas e o corte de cabelo adequado para um ambiente de trabalho. O discurso empregado pelo colunista é de um reacionarismo tão grande que dá medo imaginar uma sociedade administrada por pessoas com tais idéias em pleno século XXI.

Com esse ideal positivista de que as virtudes demonstram quem pode ser rei e quem deve ser escravo, o texto do Dr. Trabalho fez com que eu refletisse sobre o tipo de sociedade que construímos onde são oportunizados espaços para tais discursos veiculados na mídia. Corre-se, dessa forma, o risco de permitir que novos atentados preconceituosos regulem a sociedade, permitindo que se estabeleça um cenário ainda mais terrível, com menos tolerância ao próximo e mais abusos por parte de empregadores frente aos trabalhadores, que se sujeitam a tais atitudes de submissão com medo de perder o emprego ou uma vaga no mercado de trabalho.

O Dr. Trabalho apresenta um profundo preconceito em relação aos indivíduos que não almejam viver como os produtos que estampam as campanhas da publicidade. Se nós, consumidores da mercadoria “notícia”, já somos tão bombardeados pela máquina publicitária que define ditatorialmente como devemos agir; que roupas devemos usar para ser superiores aos demais; qual o modelo de carro é o melhor para posar de garanhão frente às mulheres, pensemos nas próximas gerações de homens passivos em ideais e sem criatividade vivendo apenas como meras máquinas de reprodução do sistema.

Eu espero como leitor e jornalista que o Grupo RBS, historicamente preocupado com a qualidade da comunicação social que leva à milhões de brasileiros, reveja certos conceitos emitidos por alguns de seus “jornalistas”.

Deve-se sempre estar atento às manifestações de intolerância como as do colunista do jornal de SC. É preciso que se forme uma sociedade crítica em relação ao trabalho de comunicação feito no Brasil, afinal se desejamos viver numa democracia que se realize plena, em todos os sentidos, a existência de qualquer forma de preconceito é um atentado e um perigoso retrocesso para o futuro da Nação.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Secos e Molhados: poesia e música revolucionária da década de 70*




A revolução provocada por um fenômeno na música, que sabia usar como poucos a imagem. O país era o Brasil. O ano: 1973, e os responsáveis por esse momento único em nossa cultura, eram chamados por Secos e Molhados.

Formado em 1971, pelo português João Ricardo (voz, violão de 6 e 12 cordas e harmônica de boca), o grupo, após inúmeras formações, ficou estabelecido com: Gérson Conrad (Violão de 6 e 12 cordas e vocal), Marcelo Frias (bateria) e um vocalista hippie-artesão que morava no Rio de Janeiro. Ele descolava alguns trocados como ator em peças de teatro. Após tudo acertado entre os músicos, Ney Matogrosso aceitou morar em São Paulo e fazer parte dos Secos e Molhados, começava assim a história de um fenômeno musical.

O ano seguinte seria para lapidar o som e pegar experiência em bares do underground paulistano. Certamente quem assistia a banda sofria um choque visual e sonoro, perguntando: “Qual é a desses caras? Isso é rock, mpb, blues, folk, fado, poesia ou teatro?”.

Não haviam respostas para classificar o inclassificável. O certo era que a banda trazia como proposta um cheiro de “revolução”, isso em um período em que só a palavra “revolução” era considerada um mote perfeito para a tal “subversão” que os milicos no Planalto tanto combatiam.

Na época, os tropicalistas já não tinham forças para retrucar contra a ditadura, ainda mais que eram tempos de alienação total com o “Milagre Econômico”, e a elite e classe média se empanturrando com televisores e telenovelas; o povo ficava cada vez mais pobre e nos porões da ditadura, muitos adversários do regime eram torturados até a morte. Eram tempos difíceis, tempos para serem “engolidos” na marra.
Mas, quem acabou “engolindo” algo irreverente e ousado foram os censores e os conservadores no campo da arte, pois estes jamais imaginariam o estrago promovido pelo primeiro disco dos Secos e Molhados, lançado em julho de 1973.

“Eu não sei dizer/nada por dizer/então eu escuto”.( Fala )





O impacto do álbum começava pela capa. Uma refinada peça de pop art onde as cabeças dos músicos são servidas em bandejas. Profética, a capa parece dizer o que iria ocorrer ao grupo: em poucos meses, a banda seria “devorada” por uma massa sem diferença de classes sociais, cor ou idade, mas com fome de cultura.

Clicada por Antonio Rodrigues em sua casa, a sessão de fotos deu trabalho: tanto os músicos quanto o fotógrafo passaram uma madrugada inteira serrando mesas de compensado e tirando fotos até conseguirem o resultado perfeito.

Perfeito como a sonoridade que emerge dos sulcos do vinil. Um som ainda atual, que consegue ser sofisticado mesmo tendo sido gravado em parcos 4 canais. Faixas como “O Patrão Nosso de Cada Dia”, “Fala”, “Assim Assado”, “Sangue Latino”, “Rosa de Hiroshima”, entre outras, apresentam, além de arranjos inusitados, uma variação que poderia unir as guitarras do rock contemporâneo (na época o glitter rock de David Bowie, T-Rex etc.) com uma melodia baseada em mpb e até mesmo fado. Outro destaque fica para as letras das músicas, todas de interessante texto poético, sem apelos comerciais ou refrões fáceis. Todavia, o grande destaque da banda era Ney Matogrosso.

Dono de um timbre vocal único, o cantor chamava a atenção por sua performance exótica no palco. Enfim, Ney era a imagem, ao mesmo tempo sensual e andrógina do grupo, como misteriosa e carismática.

Nessa época, o baterista Marcelo Frias já havia decidido ficar apenas como músico de apoio. Se arrependimento matasse, Frias com certeza não estaria mais na Terra, pois achando a proposta do grupo pouco comercial, preferiu ficar como músico de apoio.
O pessoal de apoio (que tocava com a banda nos shows) eram composta por eficientes músicos de estúdio como: Zé Rodrix (piano e sintetizador), Sérgio Rosadas (flauta transversa), John Flavin (guitarra) e Willie Verdaguer (baixo), entre outros. Os shows do grupo tornaram-se rapidamente uma sensação por serem verdadeiros espetáculos. Isso era refletido nas vendas do “elepê”. O álbum homônimo vendeu 50 mil cópias em apenas um mês.

Porém, a grande conquista seria através da TV Globo.

Eu já não sei se sei/ de tudo ou quase tudo/ Eu só sei de mim/de nós/de todo mundo.” (O Patrão Nosso de Cada Dia)




O primeiro programa “Fantástico” da TV Globo foi ao ar no dia 9 de setembro de 1973, a grande atração do programa era o Secos e Molhados.

O grupo incendiou de vez o país que até então não conhecia algo tão forte em termos de visual. Até mesmo o Presidente da República, na época o ditador bajeense Emílio Médici, deve ter se chocado com o grupo, pois ele se vangloriava de ser um telespectador fiel dos telejornais (na época como toda a imprensa, severamente censurada). Para Médici a TV Globo e seus noticiários e programas soavam como um calmante. Contudo, nada após esse dia, em termos de música brasileira, continuaria sendo calmo ou fácil de ser empurrado goela abaixo, principalmente pelas rádios populares que exultavam sucessos românticos de cantores como Odair José.

Os Secos conquistaram o país através do visual, e de uma infantil canção chamada “Vira” (a música era uma metáfora para o homossexualismo) que logo iria ser a mais tocada nas rádios e festas de crianças e adultos. O resultado? Em 9 meses o grupo desbancava Roberto Carlos com um milhão de cópias vendidas; lotava teatros e ginásios como o Maracanãzinho, no Rio; era capa de revistas no Brasil e nos EUA (revista Bilboard), tudo isso sem nenhum single, ou máquina publicitária por trás.
Em pouco tempo, tornaram-se sucesso na América Latina (no México o grupo vendeu 250 mil cópias), e todo esse sucesso acabou atraindo a cobiça de empresários gringos que queriam um Secos e Molhados cantando em inglês e fazendo heavy metal (meses depois da excursão ao México, segundo Ney Matogrosso surgiria o grupo Kiss); isso sem falar em uma turnê pela Europa, com direito a show na abertura da Copa da Alemanha de 1974, o que acabou não rolando. Ou seja, Os Secos haviam-se tornado a versão tupiniquim da beatlemania.

Só que a montanha russa do sucesso provoca quedas e a do Secos e Molhados também foi intensa.

“O gato preto cruzou a estrada/ passou por debaixo da escada.” (O Vira)





Ao voltar do México e com a turnê pela Europa cancelada, o grupo já vivia num grande clima de desgaste entre seus integrantes. Cada um entrou no estúdio para gravar o segundo disco lutando por mais espaços. João Ricardo dominava a produção do disco e cada vez mais tornava o ambiente hostil para Ney e Gérson. Havia inúmeras pressões da gravadora para o disco vender como o primeiro, além da ditadura militar, via polícia federal, que passava a vigiar todos os passos da banda.

Mesmo feito sob forte conflito, o segundo disco foi bem “gestado” e inclui um som mais aprimorado e denso do que o primeiro, e com músicas mais “cerebrais” e poéticas. A música que fez mais sucesso foi “Flores Astrais”. Há boas canções como “Tercer Mundo” (cantada em espanhol com texto do argentino Júlio Cortazar), “O Hierofante”, “Diga Que Eu Não Sei de Nada” (uma crítica velada à ditadura militar), entre outras. Mas, após uma semana de lançamento do segundo álbum, também intitulado “Secos e Molhados”, chegava ao fim o desbunde mágico promovido pelo trio.
Subestimado pela crítica, como uma triste obra “póstuma”, o segundo álbum passou pelo teste do tempo e hoje pode ser considerado uma continuação do mesmo nível de seu antecessor.

Após o fim da banda, todos partiram para carreiras solos. João Ricardo, em 1978 ainda tentou reativar o grupo, mas sem obter sucesso. Ney manteve sua popularidade como showman até os dias de hoje, apesar de não ter feito mais nenhum material transgressor como na época do Secos. Já Gérson Conrad, preferiu o anonimato.

Passados quase 40 anos do “rebuliço” promovido por esses alienígenas travestidos de homens, fica a certeza de sua importância para a música e o espetáculo, afinal eles revestiram de cultura pop a arte censurada da época, gerando debate e encanto em todas as classes sociais, com lindas músicas de poesia política e social. A marca da ruptura causada pelo grupo consiste na ideia de que se pode fazer algo com qualidade de música e texto e ser extremamente vendável e popular. E mesmo em um tempo de tantas porcarias, que apelam quase sempre para “danças de bundinha”, que vendem milhões e fazem milhões imitarem os passos como “macacos adestrados”, o som dos Secos e Molhados é a prova de que arte com qualidade nunca fica datada.



“...beber o possível/
sugar o seio da impossibilidade/
até que brote o sangue/
dessa terra morta/
desse povo triste. (O Doce e o Amargo)


* Versão de texto publicado originalmente no jornal Minuano

sábado, 16 de janeiro de 2010

poesia marginal ainda é vanguarda

A estética marginal da literatura brasileira é a última chama da cultura nacional. A poesia embebida em cotidiano e trazendo ao cerne de seu lirismo o canto apolítico, sem tempo para ideologias, é tão vanguarda e ousada, que após ter brotado do chão asfaltado das grandes cidades, o país nunca mais pensou em cantar em verso os lírios de um romantismo bucólico e nostálgico, até porque a poesia marginal é herdeira direta de dois outros momentos de ruptura com a tradição lírica do passado: o modernismo de 1922 e os “textos-imagens” do concretismo da década de 50.

Portanto, a poesia marginal é o último suspiro de novidade na produção poética brasileira. Mesmo que acusada de superficial, fraca em termos de conteúdo e tão abriu a machado o seu espaço na literatura nacional e fez com que ganhasse mais destaques após o fim da milicada no poder, pois talvez seu “ritmo” e conteúdo é a tradução perfeita da vida moderna brasileira coagulada na década de 80.

Depois, nada de novo no front!

A poesia marginal é a última revolução a tentar o novo e a referendar o agora como o agora necessário. Passadas as páginas físicas para os textos digitais, foram mais de vinte anos, e aí está: ela tornou-se um produto clássico da literatura produzida no Brasil.

É tão recorrente e contemporânea, que os pequenos feixes formados por palavras sem a métrica herdada pelo parnasianismo, resgatam a proposta de arrombar e violentar com todos os academicismos modorrentos que mais trancafiam a arte do que a inspiram.

Mas deve-se ressaltar que a condição de poeta, por sua vez é a presença natural de um estado à margem de outros gêneros literários.

O poeta é romântico em sua profissão de fé. Ele não nasce para ser forjado com regras e oficinas. O verdadeiro poeta busca o conhecimento, mas não o estrutura como receita para fazer poesia anêmica ou diabética. Poesia tem que ter extremo, como tão extrema é a vida fora das janelas, das portas e das casas com cercas brancas num bairro tipicamente burguês.

O poeta é inspirado pela transgressão. Ele é de uma natureza que mistura o metal com as flores, porém trabalha como uma parabólica de ideias captando os rumos de novas propostas e vanguardas, fazendo com que a poesia também sofra uma metamorfose constante. Por isso, a poesia feita por esses marginais do sistema é embalada e enrolada com tamanha disposição poética em versar a vida tropical, algo que deveríamos olhar com profunda atenção, até para sacarmos a real história da terra brasilis pós-coturno: a arte promovendo a transição dos tempos do “milagre econômico” para uma amálgama de novas propostas, ou seja, a arte marginal levando a poesia para a música, para o cinema, para o jornalismo.

Marginais que nos cabeludos idos da década de 70, se acotovelavam em revistas ambulantes e poesias mimeografadas, retirando os versos do silêncio das bibliotecas e dos saraus comportados.

A poesia transpirava novidade falando as gírias das ruas e rimaria com o grafite, com a dança, com o grito e as passeatas sem pedras, mas com poemas. Era política sem fazer mão do artifício barato de conter apologias e “ismos”, o que certamente a sufocaria ainda mais. Sem limites para ficar castrada e impotente e tendo como ênfase a necessidade de romper com as normas, a poesia marginal dos anos 70 é a práxis urbana anterior às máximas pós-modernas de criar a colagem de signos para a produção de mensagens híbridas que dialogam em sintonia com os diários publicados e encontrados nos blogs e em sites, tudo embalado nos tempos ciberespetaculares da internet.

O que reivindico nesse pequeno texto é que está na hora das escolas e faculdades ainda físicas e amarradas em conceitos mofados, olharem para os nomes de Torquato Neto, Paulo Leminski, Waly Salomão, Chacal, Ana Cristina César, Cacaso, entre tantos outros.

Autores que fizeram da poesia uma arma libertária para os tempos barra-pesada da ditadura, mas que ao proporem micro revoluções textuais, abriram novas janelas para a criação da arte tropical e tupiniquim.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Não nasceu após a Ilíada. Nem pela lava de Pompéia fez-se borboleta com asas de seda. Fez-se de fogo bruto com chama vermelha engolindo o amarelo do calor natural. Era mais que fogo, era o reflexo do magma solar que derrete dia após dia. Como o amor dos amantes que se posta por fora, mas enluta-se em silêncios de espera e conformidade, assim como todas as noites vagas entre estrelas de miríades sem nome, assim como todas as coisas ainda sem nome.

Era de tamanha intensidade que todos saíram das suas casas e foram olhar. Sabe quando os olhos querem responder que já sabem e que já conhecem tudo, que até podem transformar aquilo em palavra? Sabe quando se quer retratar algo, mas fica-se apenas no mesmo? Pois é, era tudo isso e mais aquilo, e apenas o coração conseguia distinguir o que se formava além das nuvens, e o danado respondia apressado em cada pausa de batida que aquilo sim era a vida.

Era como se fosse lenda, mito, história e carochinha. Poderíamos viver mil anos e mil anos bem vividos. Com filhos, netos e fantasmas do passado poderia ser uma velha quimera travestindo-se de moda de verão; poderia ser um sonho, daqueles bem sonhados que fica gravado nas retinas com cor, som e sabor; poderia até mesmo virar filme e causo de pescador. Poderia, somente poderia...

Tinha tudo para ser enigma sem chances de virar palavra cruzada.

Pensava com meus botões: “Quando irão nomear isso? Depois vão vender no horário nobre. Algum publicitário vai criar uma linha de produtos e isso se tornará marca e volúpia entrando como regra de auto-ajuda marqueteira, tanto de traficantes como de pastores evangélicos, todos sempre vendendo ilusões.

Quando isso estiver como desejo, todos vão ficar cegos. Aí, algum menino, gauche da vida, pegará um bodoque bem simples e quebrará com tudo”.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Programa Nacional pretende mudar a agricultura, a comunicação e o passado recente do Brasil

O brasileiro gosta de debochar dos “hermanos” argentinos pelos fracassos no futebol e por conta das praias não tão belas quanto as do nosso litoral, contudo, temos que reconhecer que a Argentina ganha de goleada em termos de memória nacional. Enquanto no Brasil toda uma celeuma é criada por conta da aprovação do projeto que institui o Programa Nacional de Direitos Humanos, que visa definir novos parâmetros em áreas como a abertura dos arquivos da ditadura militar (1964-1985), agricultura e a comunicação, por exemplo; no país vizinho em se tratando de abertura de arquivos e julgamento dos crimes cometidos durante a ditadura militar, eles estão anos luz à frente. Desde o fim da Guerra das Malvinas (1982) e da ditadura argentina (1976-1983) ocorre uma política consciente de resgatar todos os crimes cometidos no período ditatorial e com o direito às penalidades impostas a todos os militares envolvidos no genocídio de quase 30 mil argentinos.

No Brasil, mesmo com 21 anos de ditadura militar, não foram tantos os mortos e desaparecidos, mas diferente da Argentina, parece que ainda vivemos em um Estado amordaçado em relação aos direitos humanos que foram abusados no período de terror.
Com críticas advindas do Ministro da Defesa, Nelson Jobim que reitera que a revisão na Lei da Anistia, de 1979, é puro revanchismo da velha esquerda tupiniquim e que o acordo feito durante o governo militar é irrevogável. A primeira discussão ganhou os jornais e a esfera pública (porém com pouca intensidade visto que no Brasil a memória recente do país parece não obter tanto destaque quanto às discussões acerca das celebridades instantâneas): Por que há tanto medo com a abertura dos arquivos da ditadura militar?

A Lei da Anistia foi promulgada num período de exceção em que não havia outra saída para a sociedade civil brasileira, que ainda agüentaria mais seis anos de regime totalitário. Ou seja, se houve excessos tanto da guerrilha, que praticamente se formou no ano de 1968 e foi “silenciada” por volta de 1975, com o massacre em Araguaia, devem-se buscar as respostas que levaram aos atos extremos da juventude universitária que estava imbuída de um espírito de luta utópica. Mas, precisa-se ressaltar que a motivação para a luta civil partiu da repressão e do controle violento feito com os aparelhos de repressão, que durante o AI-5 mergulhou o Brasil nas trevas das ditaduras latino-americanas patrocinadas pela política americana com a famigerada Doutrina de Segurança Nacional.

É evidente que há traumas e fantasmas nos armários do governo, mas passados 26 anos do fim da ditadura brasileira nosso país deveria seguir o exemplo dos seus vizinhos de Continente. Tanto a Argentina, quanto o Uruguai e o Chile estão revendo o passado e buscando com a justiça tardia reparar os erros cometidos num período de Guerra Fria.

Projeto polêmico que evidencia um novo “pensar” sobre a realidade nacional

O Programa Nacional de Direitos Humanos nasceu após 50 conferências e foi assinado pelo presidente Lula no final do ano passado. Com a justificativa de trazer temas que não são debatidos tradicionalmente na sociedade brasileira, como é o caso dos direitos humanos, o programa trouxe uma profunda crise no governo, com os ministérios da Comunicação, Agricultura e Defesa entrando em guerra contra o projeto sancionado por Lula.

O mal-estar provocado em ano de eleição poderá trazer prejuízos para o plano do PT de manter sua legenda no poder por mais quatro anos. Além disso, os temas são praticamente “intocáveis” na cultura política do Brasil. Um deles, talvez o que receba mais críticas e divida ainda mais o governo, aborda a questão delicada da agricultura produzida no país. Há um embate entre os Ministros Reinhold Stephanes, da Agricultura (e ligado ao agronegócio) com os Ministros Guilherme Cassel, do Desenvolvimento Agrário e Carlos Minc, da pasta do Meio Ambiente. A disputa é histórica: até que ponto a agricultura praticada por grandes produtores auxilia no desenvolvimento do setor agrícola e, se desenvolve a que preço ambiental? Isso sem falar que as motivações para as lutas por terra ainda são as mesmas: muitos hectares são destinados ao ócio produtivo, porém pertencentes aos formadores de opinião e com peso político, isso afastaria qualquer ação do governo para uma reforma agrária eficaz e justa, tanto para colocar terras inativas nas mãos de quem deseja produzir, como para “acalmar” os ânimos de setores baderneiros de alguns movimentos sociais que confundem reivindicação com ações de destruição sem justificativa alguma.

A ideia para esse tema é alterar as regras no cumprimento de mandados de reintegração de posse quando acontecer invasões, além de que ocorram audiências públicas antes que um juiz possa decidir sobre a concessão de liminar para a reintegração de posse de uma fazenda que tenha sido invadida por trabalhadores sem-terra.
Sobre a mídia brasileira haveria um controle do poder público em relação ao conteúdo exibido pelos canais de comunicação. A mudança traria novas regras para a renovação e outorga de serviços de rádio e TV, com uma base voltada para marco legal que trate e respeite os direitos humanos. Isso tornaria, segundo o Programa, a mídia mais responsável a qualquer violação e agressão aos direitos humanos. Para tanto, seria criado um ranking nacional dos meios de comunicação comprometidos com os princípios de direitos humanos.

As críticas já disseminam a acusação sobre a possível violência contra a liberdade de imprensa. Alguns questionam o chamado “golpismo” da esquerda que se prolifera na América Latina, trazendo como exemplo as guerras contra mídia privada cometidas pelos governos Kirshner e Chavez na Argentina e Venezuela, respectivamente. O fato é que (e agora tendo base em minha opinião como brasileiro e jornalista), que não se trata de “afronta contra a liberdade de imprensa”. Todos sabem que vivemos numa ditadura velada e mantida pela mídia privada. Os grandes conglomerados de comunicação desse país (muitos que tiveram apoio financeiro e tecnológico na época da ditadura militar) colocam e tiram os governantes, além de que é pratica usual a de não respeitar as máximas sobre direitos humanos, violando diariamente com sensacionalismo e notícias espetaculares do “mundo cão”, o que poderiam trazer com uma comunicação mais comunitária, cultural e voltada ao social.

Se os meios de comunicação, principalmente as emissoras massivas de rádio e televisão funcionam com base numa concessão pública, nada mais justo que sejam reguladas em termo de concessões e sejam penalizadas caso cometam “crimes” contra o povo consumidor desse produto chamado informação.

Quem tem apenas condições de assistir as emissoras de televisão aberta é agredido diariamente com o que de mais baixo pode ser oferecido em termos de informação e entretenimento, sendo que muitas dessas emissoras têm repetidoras com a concessão vencida, além de serem fruto da expansão política do coronelismo eletrônico do governo José Sarney (1985-1990) que favoreceu em troca de apoio político a distribuição de concessões a inúmeros parlamentares.

Ou seja, minha opinião é favorável ao Programa assinado pelo governo Lula. Com base na minha ideologia e no meu projeto como profissional de comunicação, estarei sempre ao lado de qualquer ação que traga melhorias para o social e que faça com que os direitos não sejam apenas de uma minoria, mas de todos. Assim deveria ser, utopicamente falando, mas quem sabe com pequenas ações e discussões sobre temas tabus como esses, o Brasil não consiga se tornar um país melhor no futuro?