domingo, 22 de novembro de 2009

Ela é a bossa (lisergia na noite chuvosa)

1 - Ouvidos no Plastic Soda, disco de 99 do Júpiter. Tem uma galera que acha que o Júpiter se resume ao Sétima e ao Tarde. Mas tudo bem, esses ouvidos pueris acostumados apenas ao ‘rockinho gaúcho’ devem entender que descobriram o mestre Barret por causa do lisérgico disco de Maçã/Apple de 1997, contudo a magia sonora não pode ficar apenas nessas obras. O que não entendo é o pré-conceito com a obra cantada em inglês de Flávio/Júpiter. Plastic Soda e Hisscivilization são fundamentais para quem respira todas as vertentes que formam o psicodelismo tupiniquim...


2 - E viva Walter Franco, Jorge Mautner, Tom Zé e Lula Cortês...



3 - Que facilidade ela tem para invadir meus domínios pela janela e espantar o sol amarelado e trazer uma chuva londrina. Como chove! Chove sem parar! Lá fora as mesmas almas que cortavam cactos para banhar os lábios na espera do fim da sede, agora lutam contra a enxurrada. Parece que Deus adormece nessas horas.
São duas, já quase três da madruga. Deveria estar dormindo como manda a rotina. Deveria estar de terno e gravata agindo como um homem de trinta, mas não consigo. Definitivamente sou a ovelha desgarrada, maluca e alucinógena que nasceu em prados diferentes.

Nossa! Isso é tão desesperador, que agora tudo conforta. Antes do agora, precisava sempre misturar o trago com a coca e esperar que meu tempo nunca fosse embora. Mas como passou rápido e tão rápido passou Passárgada que é melhor eu deixar minha alma gauche seguir sufocada num corpo destro e direitista...

Socorro! Meu lado esquerdo quer me matar!

4 - Como é diferente esse mundo do mundo que eu sonho. No meu sonho eu poderia enfim falar pra você sem mais ter que esperar o tempo da resposta. Nessa procissão fria e tecnológica de bytes sobrará pra quem a paz de uma cesta chuvosa?

5 - Ainda prefiro o grito, gemido e a dor... esse simulacro causa apenas torpor, sedentarismo e ilusão.

6 - nós dois
apenas nós dois.
nós dois e nada mais.
o resto
e tudo mais
pra depois...

Histórias reais de pessoas reais*

Por Marcelo Pimenta

No jornalismo há uma máxima apregoada, tanto na academia, quanto na prática, de que a realidade só existe quando ela vira produto jornalístico. Ou seja, apenas quando é transmitida à sociedade através dos meios de comunicação. Se não é notícia, ninguém sabe, logo não é algo “real”. Mas o que é real?
* Texto publicado originalmente no jornal Correio do Sul-setembro de 2007
Muito além do que se vê, se ouve, se lê, há vida real e gente real. Um universo preso em cada instante do cotidiano com pessoas e momentos, que pela pressa do dia-a-dia deixamos de perceber.

Assim como deixamos de perceber esses aspectos, também deixamos de lado a consciência que devemos ter como cidadãos em uma sociedade. Consciência que, a funcionária de serviços gerais da Secretaria Municipal de Atividades Urbanas (Smau), Sandra Regina dos Santos, pede à população. “As pessoas devem ser mais conscientes em relação ao lixo. Não só como forma de educação, mas também para vivermos em uma sociedade com mais higiene e limpeza”, declara. Ela afirma que muitas pessoas não colaboram em manter a cidade limpa, nem respeitam o serviço dos funcionários da “varreção”. “Ah! Muitas pessoas nos tratam com indiferença, não nos auxiliam. Às vezes parecem fazer por gosto: Nos enxergam e jogam papéis, latinhas de refrigerante, etc. Em muitos casos, temos que tomar cuidado para não sermos atropeladas quando fazemos nosso serviço”, confessa Sandra.

Natural de Santana do Livramento, ela vive há 25 anos em Bagé com três filhos. Divide seu tempo entre serviço, família e faculdade. Está no segundo semestre de artes plásticas da Urcamp. Prefere a pintura tradicional que representa paisagens ao abstracionismo. Paralelo à profissão ela tem o gosto de recriar paisagens na telas com o mesmo esmero em preservar as “paisagens” da cidade limpa. “O serviço que fazemos nas ruas é fundamental para a cidade. Não adianta existirem praças com árvores bonitas, brinquedos e bancos pintados, com lixo em volta”, salienta.

Não é porque há trabalhadores para recolherem o lixo que devemos sujar a cidade. Não é porque existam Ongs e grupos formados por ambientalistas conscientes no combate à sujeira, que devemos ficar omissos e coniventes com a poluição. O que Sandra faz como profissão – manter a cidade limpa – todos deveríamos fazer por cidadania.
Isso responde a pergunta do primeiro parágrafo dessa matéria. O que é real?

A funcionária da prefeitura na rotina de trabalho, limpando e clamando por colaboração da sociedade na luta por uma cidade mais limpa é um fato relevante, logo um assunto jornalístico. Comprovando ser uma “voz anônima” a ser escutada, Sandra Regina dos Santos é parte de uma realidade mais “real” do que muitos sorrisos encenados em colunas sociais, ou meros sorrisos debochados nos círculos dominantes.

Quem sabe a “varreção” não deveria se estender até o Planalto Central?

* reportagem publicada no jornal Correio do Sul - setembro de 2007

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

três singelas canções sobre a benevolência do ódio

Queime meus olhos para eu não ver este tempo
Filhos mortos derrubaram o rei
Agora a cidade segue o anoitecer
Minhas palavras não servem para o altar de ilusões.

Novas drogas estão na roda
O ontem nasce com as mesmas putas
As velhas camisetas que eu rasguei
Servem de bandeira às idéias corruptas

Consumam
Consumam a minha miséria
No banquete de hipócritas

E que a raiva e o rancor
Sirvam de lembrança
Para todos aqueles que sonham de olhos abertos.

Eu voltarei para cortar essas cabeças
Que exibem doces sorrisos de vitória.

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Não consigo respirar.
Quanto tempo estive ausente?
Meus olhos no espelho choram
Palavras presas em gemidos
Ecoam pelo quarto
Minha cabeça arde
Numa febre sem suor

Quanto tempo?
Por todo o tempo estive ausente!

Sangue!

Corto minha língua
Numa estranha mudez
O silêncio tortura
Rasga meus ouvidos com a espera
Preciso conversar com alguém
Preciso encontrar uma sombra
que não seja a minha
nem a tua a gargalhar da minha vida

Onde está meu passado?
O passado em pedaços se perdeu!

Desespero!

Bato com as mãos sobre a cama
Tento acordar deste sono tão claro
Nenhuma imagem oferece paz
À turva revolta, com clamor eu anseio a volta.
Estou fraco demais
Para acordar com fé

Quanto tempo estive ausente?
Na ausência da vida, só existe uma covarde esperança!

Morte!

Sinto a fome como última saída
A comida está apodrecendo embaixo da porta
A poeira cobre as palavras
Navego isolado em ilusões
O tempo de ausência
Na carne, enfim chegou.
Nunca mais irei encontrar-me.

Onde estou?
Na memória... Sempre presente na memória!

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As paredes estão claras, mudas e cegas deixam tudo desaparecer. Não consigo adormecer porque meus olhos vigiam as sombras. Todas as fantasias de criança voltam a me assustar. Parece não ter fim o pesadelo. Quando eu vou acordar? Lá fora os bravos seguem andarilhos e eu aqui perdido. O tempo todo esperando por uma promessa que jamais foi atendida. Quem irá trazer minha filha, minha amada e minha força de volta? As memórias castigam a pele e eu uso panos para cobrir o sangue. Tenho picadas que nem as tatuagens do passado podem disfarçar.

Derreta agora na água todos os meus sonhos, preciso deles novamente em cores para que no último sonho eu possa acordar. Bata na porta e chame pelo eu, aquele estranho parecido comigo que andei esquecendo no passado. Tornei-me um resto do nada, um relato entre amigos que saúdam a saudade e, temem com medo, chorar novamente por aquele que se esqueceu de si mesmo.

Contei todas as histórias e mesmo assim eu fui taxado como um idiota.

sábado, 24 de outubro de 2009

Neblinas, sombras e paixão

Eu tenho dois nomes que se misturam à fantasia da possibilidade de ser o outro. De certa forma, caminho encolhido pelas ruas de pedra, porém sou galante e tenho a fronte sempre reta, na minha persona transeunte, de um mundo sem pedras.

Quem de perto avista não entende porque desse corpo nem a sombra se aproxima. Ela passa rente, tão breve e por vezes tímida, que entre outras sombras, é andarilha distraída.

Vigio na espreita um olhar tão morno. Desviar esse mar negro para um rumo qualquer é fingir felicidade avulsa. Por isso talho na face plástica um sorriso de carne com borracha. A febre não arde mais, ela se acostuma a descer pela pele em frias tentações. Toda vez que caminho por essas velhas ruas, sinto a pressa em esconder-me.

Quem precisa agora de sombras, se na luz da entrega, e no dorso nu, da morena inquieta, a pele procura e mapeia a mais suave poesia...

Quem precisa de identidades, quando queima tão cedo por outro alguém?

Maneco e a novela "Viver a Vida": Uma estranha "Suíça tropical" no horário nobre



Escritor Manoel Carlos (sent. dir.): autor cria uma Suíça tropical para agradar o público órfão do milagre econômico




Acabou a novela surreal “das índias” e a Globo lança outro produto de idêntica natureza na mesa dos brasileiros. Mesmo que a trama da nova novela das oito não tenha conceitos “rocambolescos” como a de “Caminho das Índias”, nota-se, já no primeiro capítulo, que o velho autor Manoel Carlos, o “Maneco”, insiste em produzir um “Brasil” que não existe e, se existiu algum dia, foi apenas na cabeça da velha elite burguesa do país, a mesma classe social que até hoje é “viúva” do milagre econômico da década de 70.

“Viver a Vida” é a velha história com os mesmos velhos personagens. Ta, até aí tudo muito óbvio em se tratando de telenovela, mas a grande palhaçada dessa vez é “empurrar” goela abaixo do povão – público que é o maior consumidor do produto novela – uma história sobre os prazeres da vida de gente que nasce no Brasil, mas pensa que está na Suíça.

A novela mesclou nas primeiras cenas duas “realidades”. Numa delas, a protagonista aparece em um lugar paradisíaco e “tropical”, ao som de Gal Costa, sendo entrevistada por uma equipe de televisão. Nota-se nessas cenas um país sem pressa no embalo da bossa nova. Um paraíso para todos aqueles que vivem sob olhares estrangeiros e pensam que o Brasil é isso: um porto romântico para os escolhidos gozarem as maravilhas que o dinheiro e o poder podem oferecer.

A personagem vivida pela atriz Taís Araújo faz esse papel com convicção. Em seu discurso, ela passa tranqüilidade, segurança e apego à família. É o caso da pessoa que deu certo, reconhece o destaque que alcançou na profissão e, ainda mantém, pelo seu carisma (ou fama) o centro das atenções alheias. Tudo muito certinho e maniqueísta como qualquer trama. Ou seja, tradicionalmente ela é a moça vitoriosa que vai brigar pelo amor do outro protagonista burguês, o clássico canastrão e garanhão vivido sempre por José Mayer.

Tudo bem, isso é recorrente nas tramas do Maneco. Quem já acompanhou as novelas escritas por ele sabe que as Helenas, não são as mesmas Helenas imortalizadas por Chico Buarque. Àquelas cantadas em versos inesquecíveis pelo compositor e cantor carioca são as anônimas que vivem as “mais duras penas pelos seus maridos”. Guerreiras brasileiras que nascem e morrem no cotidiano sem holofotes da mídia nacional.

Além disso, o autor gosta de apresentar uma realidade pintada como a de um país maravilhoso, onde temos um Brasil idílico da burguesia e elite dominante, como também seu contraponto: o Brasil feio e sujo das favelas e periferias.
E isso ficou evidente no capítulo de estréia da novela. Enquanto um lado do Brasil era “maquiado” com cenas de requinte e classe, o outro era violentamente estereotipado. Ao mostrar a irmã da protagonista, que não seguiu o lado “bom” da vida, correndo perigo numa favela, a realidade construída é maniqueísta ao extremo. Como ter aquele Brasil bonito para inglês ver, se temos que conviver com esse lado sujo e violento das favelas e periferias? Esse é o problema das telenovelas: elas banalizam estereótipos fundados historicamente no país.

Não adianta colocar uma protagonista negra na novela das oito para tentar acabar com o racismo na mídia, se o racismo se mantém com a própria trama escrita pelo autor. Nela, é evidente que o Brasil bom é o branco, rico e fútil... Alienado em pensar que se vive numa “Suíça tropical”, enquanto o lado ruim deste país é o que abarca toda a criminalidade e violência gerada pelas favelas e periferia.

Em um país que já foi criticado por apresentar uma população que detém mais aparelhos de televisão do que geladeira é um atentado contra a inteligência a Rede Globo oferecer uma novela como essa. Isso porque ela segue viciando o povo com seu “ópio” televisivo. Porém, se compararmos com as produções de trinta anos atrás, é evidente que o produto novela perdeu muita qualidade em suas tramas. No passado, dramaturgos como Dias Gomes e Janete Clair, criavam obras de grande imaginação, além de realizarem adaptações de obras clássicas de escritores como Jorge Amado. Hoje, temos dois tipos de telenovela: as surreais de Glória Pérez e as também surreais de Manoel Carlos.

Enfim, fica o conselho: desligue a televisão e vá descobrir o verdadeiro Brasil que está longe de ser da ilusória euforia das Olimpíadas, como das nostálgicas bossas de Maneco.

* texto escrito em 26 de setembro de 2009

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Colecionadores de vícios diários

Por mais máquina tenha se tornado a humanidade, mais abissal é o mergulho do homem em sua decadência como ser pensante. Não se contempla a eficiência racional idolatrada como o fim das mazelas e das patologias causadas pelo homem “animal”, mas, sim, observamos o contrário: a falência da própria sociedade planejada pelo capital.

E isso é explícito quando as glórias do progresso tornaram o homem livre de sua condição meramente coletiva, pulsando-o ativo para tecer posições políticas; para defender seus direitos e fazer de si elemento individual próprio e, também, para a manutenção de uma sociedade democrática – o que supostamente se daria com a luz da razão num sistema harmonioso para todos os demais – contudo, criou-se o avesso: uma ilusão sustentada pelo modus operandi da tecnologia, de que o homem é um ser livre, racional e independente. Mas se é exultada tal “realidade”, como responder aos indícios que apresentam um homem ainda primitivo em inúmeros aspectos.

Esses paradoxos são facilmente notados, basta abrir um jornal, ou quem sabe um e-mail e ler as últimas notícias: de um lado as praticidades de uma vida mais ele se enraíza em sua condição animalesca, mostrando com todos os argumentos, o quão bárbaro pode resultar a dependência com as ilusões de progresso.

O Iluminismo que teceu os movimentos das sociedades progressistas nos últimos séculos fracassou. Geramos uma idéia falsa de que o futuro seria conquistado com base no progresso tecnológico.

Se todos os homens, hoje, idealizam, de certa maneira, serem idênticos em sucesso, porque nascem impelidos a buscarem tal receita para a própria história que dela desejam fazer parte, imagine a revolta que se instala no coração daqueles que nada podem fazer para seguir esse caminho dourado que é tão bem vendido aos olhos desejosos?

Pois pensemos na idéia do progresso, da opulência econômica, de todo o poder de status, entre outros símbolos, que empregados nesse texto, auxiliam para que se traduza de forma fiel na “bandeira” erguida de que a felicidade está na garantia para uma confortável vida passiva, onde possamos gozar de todos os luxos e luxúrias conquistadas. Assim, proclama a máquina! Ela que simula com o virtual, a vida sem tempo e finitude; a graça maior de vencer o inimigo de tudo que nasceu no ontem; a virtude dos eleitos; a honra dos capazes em fazer a história, os heróicos vencedores, àqueles que não se limitam e que se distanciam da mísera existência como estatística, o que resulta em uma acentuada degradação moral dos seres simplórios em enquadramentos e limites determinados pela sociedade atual.

Essa sociedade vive por simulacros, alguns como o da “eternidade” realizado pela proposta antimatéria da tecnologia do espaço virtual, que passa a ser a criadora de nova esfera pública. Portanto, a própria noção do privado está enterrada. A vida com o status de “vida tecnológica” só se torna real se exibida aos demais. Dessa forma, vive-se pela importância dos momentos publicados e recortados em uma realidade midiatizada. Essa é a proposta das novas possibilidades tecnológicas da mídia: a espetacularização da existência banal elevada ao excesso dionisíaco de viver apenas o presente, subjugando propostas e contestações políticas ao “cárcere” de debates sem atitudes, ou deixando o “fazer política” preso em pequenos rincões atrelados a radicalismos datados, por vezes empregados apenas como moda.

Por isso, estamos vivendo num momento chave: ainda não entendemos a condição social que está a ser estabelecida diariamente em um mundo sem fronteiras e de personalidades transitórias.

Estamos perdidos em rotas que não existem de fato, porque são todas simulações de uma vida representada artificialmente. Somos transeuntes de caminhos limitados pelo fim da imaginação. A passividade está sendo divulgada como ato natural para a sociedade, conseqüentemente até pensar torna-se um fardo, segundo as novas regras sociais.
Porém, fica a necessidade do debate. Pense no atual estado letárgico da sociedade.

É uma sociedade estabelecida em discursos de instituições “arcaicas” perante o mundo atual. Afinal, o que temos é uma sociedade fragmentada e definida apenas pelo consumo. Se ela se sustenta nesse vazio, torna-se explicito que o desejo reprimido e o já conhecido “mal estar”, que tanto Freud nos mostrou, agora condicionado e multiplicado para todos aqueles que nada podem, nada tem ou nada farão para aplacar esse sentido tão bem estimulado, defina a vida com um imenso vazio existencial.

Pode se observar, assim, a humanidade pela representação de uma sociedade de “colecionadores”. Caracterizados pela ordem da posse, a única forma de diferenciação é através do consumo. Contudo, nesse esquema de relação do homem com a matéria, quanto mais se consome, mais aumenta seu vazio. De certa forma, a existência torna-se moldada através dos utensílios que definem a identidade formada de um indivíduo. A personalidade de alguém, hoje, é atribuída pelo que ouve, lê, ou assiste, porém para isso é necessário “exultar” que detém tais conhecimentos; melhor ainda se exibi-los caracterizando-se pertencente a uma tribo, grupo ou comunidade específica.

É uma sociedade sem territórios, formada por colecionadores de objetos, palavras e símbolos afins, que apresentam um tempo sem mais ideologias ou utopias delirantes, apenas a necessidade incessante do prazer, o prazer de comprar e ostentar o viver, tudo nesse aqui e nesse agora.

Nesse tempo de ter apenas o tempo presente, podemos trazer como exemplo para ilustrar esse texto a figura de um colecionador de livros que se entrega ao deleite da conquista e da posse de um livro raro. O desejo de possui-lo tal como se conquistasse o mundo inteiro, dissipa-se e vira o avesso do prazer, quando, em seguida, encerra esse estado de êxtase. Esse estado absurdo de viver sentindo um imenso vazio proporciona a comparação com a deformação de consciência de um viciado. De fato, é uma realidade contemplada por colecionadores e viciados.

Se o colecionador adquire milhares de utensílios e produtos do mesmo estilo ou ordem, é porque ele necessita se ver representado naquela coleção. Quanto mais produtos ele tiver, maior será a coleção. Mesmo que no caso de livros, por exemplo, não consiga ler todos os títulos, os exibirá como se todo aquele montante em sua biblioteca fosse o retrato fiel e majestoso de sua identidade. Daí a idéia da busca incessante por mais e mais obras à sua coleção, ele precisa manter sua identidade, ou seu ego, sempre acima dos demais, para que não caia no drama de se sentir menor, inferiorizado, tanto que esse sentimento também é favorável ao ego, visto que a dor de estar aquém dos demais vai proporcionar que a compulsão seja encarada como necessidade psicológica para que volte a consumir, mais e mais. Assim, se equivale como o viciado que pretende suprir com outra dose, a sua vontade de não sentir mais a angústia da ausência da droga.

Oferecer a negação desse vazio é o trunfo da publicidade! Esse é o método de criar a magia, a ilusão, a forma eficaz de vender utilitários que proclamem o homem herói de seu tempo, sempre encantado e feliz com o que possui.

O “ser vazio” que se alimenta das ilusões para tentar, num mosaico de si mesmo, juntar pedaços de outros seres definindo-se como humano e perfeito; dotado de bens; dotado de vida eterna pelas arestas do ciberespaço sem limites, é o retrato fiel do cidadão consumidor: alguém que vive pela insatisfação incessante do ego.

Nietzsche exigia que se constatasse a crise na sociedade humana. Essa era a única possibilidade de engendrar um novo pensar de sociedade. Compreender a falência de todas as “verdades” daria condições de observarmos a vida que se apresenta. A negação dessa constatação demonstraria a inutilidade do pensar, sendo que o próprio ato de pensar também estaria fadado ao fracasso.

Se ele denunciou que o “esvaziamento” de valores autênticos levaria à barbárie e a própria destruição da moral e dignidade humana, talvez seja tempo de aceitar a condição atual: já estamos vivendo o vazio maior e como humanos passamos a existir na condição de meros colecionadores de vícios diários.

Laís e a noite bageense*

Os primeiros minutos daquela sexta-feira chegaram gelados à Campanha. O termômetro indicava 5 graus, mas a sensação térmica era de temperatura negativa. As ruas da cidade estavam vazias, todos recolhidos em silêncio, esperando pelo final de semana. Contudo, o silêncio típico de uma rua distante do centro de Bagé, cidade com pouco mais de 90 mil habitantes, era cortado pela melodia de forró que saia de uma casa. A lâmpada vermelha na porta destacava que essa casa não era um lar qualquer.

Ao entrar no estabelecimento não vejo nada daquela decadência elegante sacramentada no cinema americano.

Ali, o que impera é uma melancolia que combina com o frio. Um total de 11 mulheres com aparência cansada e tediosa contrastam com a idéia de que uma delas poderia ser a atriz Julia Roberts esperando pelo príncipe encantado.

Se havia algum, entre os homens que visitavam o estabelecimento, nenhum deles se assemelhava com o Richard Gere do filme Uma linda mulher. No total eram homens de meia idade que tentavam com o álcool e a companhia feminina escapar do vazio modorrento de suas vidas.

Posso ver, mesmo com o ambiente escuro do lugar, que há um pequeno palco e sofás no fundo do salão. Uma das garotas segura um copo com uísque e se aproxima perguntando: “Quer companhia?”.

O nome dela é Laís, tem 28 anos é natural de Caçapava do Sul e está em Bagé desde 2001. Faz cinco anos que trabalha na casa. Ela é a garota mais antiga e a mais estimada pela proprietária da boate, sentimento que faz questão de destacar: “A ‘Mana’ é como uma mãe para mim, sempre me ajudou, desde o início quando comecei na boate. Hoje, se posso dizer que tenho casa e uma moto é pelo apoio dela”, diz a garota que aparenta bem menos do que seus 28 anos de idade.

Laís é morena de cabelos lisos e curtos até a orelha. O tom escuro dos fios contrasta com a pele clara, que por sua vez combina com a calça preta e a blusa justa da mesma cor. Usa salto, o que a faz parecer mais alta, tem estatura mediana e seu corpo é magro.

Ela afirma que a coisa mais sedutora que tem é seu sorriso. Não posso negar, ela é simpática e bem conhecida pelos outros freqüentadores do estabelecimento. “Sabe porque eu sou bem respeitada pelos homens aqui e lá fora? Porque não sou do tipo que gruda no cliente. Gosto de tratar bem e ser amigável. Não exijo de cara um programa, gosto de conhecer a pessoa e conversar bastante”, explica. “Meu sonho é fazer a faculdade de Direito e eu ainda vou cursa-la. Estou juntando dinheiro e ficarei na noite, por no máximo uns três anos. Eu tenho filho e sei que o tempo passa rápido demais”, afirma entornando um copo de uísque com energético. Ganha mais dinheiro assim, do que fazendo sexo.

A tática é fazer com que os homens paguem as chamadas “doses”. Cada dose, custa em torno de oito reais. A cerveja é a bebida preferida dos freqüentadores. As garotas bebem apenas uísque.

Nesse reduto, cliente e garota de programa usam da negociação como forma para conquistar os objetivos. O dela é retirar o máximo de dinheiro do cliente, de preferência sem fazer programa. “Às vezes é insuportável a idéia de teres que fazer sexo com uma pessoa nojenta. Mas é uma profissão né?!”, justifica Laís. Em contrapartida, a lógica dos clientes é gastar o menos possível, de preferência com programas fora do estabelecimento onde não há despesas com “doses”, nem com as “chaves do quarto”.

Ela trabalha nas noites de terça até sábado, inclusive no dia dos trabalhadores como gosta de salientar. Seus pais sabem da sua profissão, mas não se importam. Como ela diz: “pago todas a contas e sustento a casa dessa forma. Não sonho mais com príncipes, nem com casamentos, quero apenas poder sobreviver e dar boas condições para meu filho”.

Laís se acostumou a varar as noites trabalhando para que no dia seguinte ocupe sua outra profissão: mãe solteira e dona de casa.

* Reportagem especial do dia dos trabalhadores (01/05/2008)