A revolução provocada por um fenômeno na música, que sabia usar como poucos a imagem. O país era o Brasil. O ano: 1973, e os responsáveis por esse momento único em nossa cultura, eram chamados por Secos e Molhados.
Formado em 1971, pelo português João Ricardo (voz, violão de 6 e 12 cordas e harmônica de boca), o grupo, após inúmeras formações, ficou estabelecido com: Gérson Conrad (Violão de 6 e 12 cordas e vocal), Marcelo Frias (bateria) e um vocalista hippie-artesão que morava no Rio de Janeiro. Ele descolava alguns trocados como ator em peças de teatro. Após tudo acertado entre os músicos, Ney Matogrosso aceitou morar em São Paulo e fazer parte dos Secos e Molhados, começava assim a história de um fenômeno musical.
O ano seguinte seria para lapidar o som e pegar experiência em bares do underground paulistano. Certamente quem assistia a banda sofria um choque visual e sonoro, perguntando: “Qual é a desses caras? Isso é rock, mpb, blues, folk, fado, poesia ou teatro?”.
Não haviam respostas para classificar o inclassificável. O certo era que a banda trazia como proposta um cheiro de “revolução”, isso em um período em que só a palavra “revolução” era considerada um mote perfeito para a tal “subversão” que os milicos no Planalto tanto combatiam.
Na época, os tropicalistas já não tinham forças para retrucar contra a ditadura, ainda mais que eram tempos de alienação total com o “Milagre Econômico”, e a elite e classe média se empanturrando com televisores e telenovelas; o povo ficava cada vez mais pobre e nos porões da ditadura, muitos adversários do regime eram torturados até a morte. Eram tempos difíceis, tempos para serem “engolidos” na marra.
Mas, quem acabou “engolindo” algo irreverente e ousado foram os censores e os conservadores no campo da arte, pois estes jamais imaginariam o estrago promovido pelo primeiro disco dos Secos e Molhados, lançado em julho de 1973.
“Eu não sei dizer/nada por dizer/então eu escuto”.( Fala )
O impacto do álbum começava pela capa. Uma refinada peça de pop art onde as cabeças dos músicos são servidas em bandejas. Profética, a capa parece dizer o que iria ocorrer ao grupo: em poucos meses, a banda seria “devorada” por uma massa sem diferença de classes sociais, cor ou idade, mas com fome de cultura.
Clicada por Antonio Rodrigues em sua casa, a sessão de fotos deu trabalho: tanto os músicos quanto o fotógrafo passaram uma madrugada inteira serrando mesas de compensado e tirando fotos até conseguirem o resultado perfeito.
Perfeito como a sonoridade que emerge dos sulcos do vinil. Um som ainda atual, que consegue ser sofisticado mesmo tendo sido gravado em parcos 4 canais. Faixas como “O Patrão Nosso de Cada Dia”, “Fala”, “Assim Assado”, “Sangue Latino”, “Rosa de Hiroshima”, entre outras, apresentam, além de arranjos inusitados, uma variação que poderia unir as guitarras do rock contemporâneo (na época o glitter rock de David Bowie, T-Rex etc.) com uma melodia baseada em mpb e até mesmo fado. Outro destaque fica para as letras das músicas, todas de interessante texto poético, sem apelos comerciais ou refrões fáceis. Todavia, o grande destaque da banda era Ney Matogrosso.
Dono de um timbre vocal único, o cantor chamava a atenção por sua performance exótica no palco. Enfim, Ney era a imagem, ao mesmo tempo sensual e andrógina do grupo, como misteriosa e carismática.
Nessa época, o baterista Marcelo Frias já havia decidido ficar apenas como músico de apoio. Se arrependimento matasse, Frias com certeza não estaria mais na Terra, pois achando a proposta do grupo pouco comercial, preferiu ficar como músico de apoio.
O pessoal de apoio (que tocava com a banda nos shows) eram composta por eficientes músicos de estúdio como: Zé Rodrix (piano e sintetizador), Sérgio Rosadas (flauta transversa), John Flavin (guitarra) e Willie Verdaguer (baixo), entre outros. Os shows do grupo tornaram-se rapidamente uma sensação por serem verdadeiros espetáculos. Isso era refletido nas vendas do “elepê”. O álbum homônimo vendeu 50 mil cópias em apenas um mês.
Porém, a grande conquista seria através da TV Globo.
Eu já não sei se sei/ de tudo ou quase tudo/ Eu só sei de mim/de nós/de todo mundo.” (O Patrão Nosso de Cada Dia)
O primeiro programa “Fantástico” da TV Globo foi ao ar no dia 9 de setembro de 1973, a grande atração do programa era o Secos e Molhados.
O grupo incendiou de vez o país que até então não conhecia algo tão forte em termos de visual. Até mesmo o Presidente da República, na época o ditador bajeense Emílio Médici, deve ter se chocado com o grupo, pois ele se vangloriava de ser um telespectador fiel dos telejornais (na época como toda a imprensa, severamente censurada). Para Médici a TV Globo e seus noticiários e programas soavam como um calmante. Contudo, nada após esse dia, em termos de música brasileira, continuaria sendo calmo ou fácil de ser empurrado goela abaixo, principalmente pelas rádios populares que exultavam sucessos românticos de cantores como Odair José.
Os Secos conquistaram o país através do visual, e de uma infantil canção chamada “Vira” (a música era uma metáfora para o homossexualismo) que logo iria ser a mais tocada nas rádios e festas de crianças e adultos. O resultado? Em 9 meses o grupo desbancava Roberto Carlos com um milhão de cópias vendidas; lotava teatros e ginásios como o Maracanãzinho, no Rio; era capa de revistas no Brasil e nos EUA (revista Bilboard), tudo isso sem nenhum single, ou máquina publicitária por trás.
Em pouco tempo, tornaram-se sucesso na América Latina (no México o grupo vendeu 250 mil cópias), e todo esse sucesso acabou atraindo a cobiça de empresários gringos que queriam um Secos e Molhados cantando em inglês e fazendo heavy metal (meses depois da excursão ao México, segundo Ney Matogrosso surgiria o grupo Kiss); isso sem falar em uma turnê pela Europa, com direito a show na abertura da Copa da Alemanha de 1974, o que acabou não rolando. Ou seja, Os Secos haviam-se tornado a versão tupiniquim da beatlemania.
Só que a montanha russa do sucesso provoca quedas e a do Secos e Molhados também foi intensa.
“O gato preto cruzou a estrada/ passou por debaixo da escada.” (O Vira)
Ao voltar do México e com a turnê pela Europa cancelada, o grupo já vivia num grande clima de desgaste entre seus integrantes. Cada um entrou no estúdio para gravar o segundo disco lutando por mais espaços. João Ricardo dominava a produção do disco e cada vez mais tornava o ambiente hostil para Ney e Gérson. Havia inúmeras pressões da gravadora para o disco vender como o primeiro, além da ditadura militar, via polícia federal, que passava a vigiar todos os passos da banda.
Mesmo feito sob forte conflito, o segundo disco foi bem “gestado” e inclui um som mais aprimorado e denso do que o primeiro, e com músicas mais “cerebrais” e poéticas. A música que fez mais sucesso foi “Flores Astrais”. Há boas canções como “Tercer Mundo” (cantada em espanhol com texto do argentino Júlio Cortazar), “O Hierofante”, “Diga Que Eu Não Sei de Nada” (uma crítica velada à ditadura militar), entre outras. Mas, após uma semana de lançamento do segundo álbum, também intitulado “Secos e Molhados”, chegava ao fim o desbunde mágico promovido pelo trio.
Subestimado pela crítica, como uma triste obra “póstuma”, o segundo álbum passou pelo teste do tempo e hoje pode ser considerado uma continuação do mesmo nível de seu antecessor.
Após o fim da banda, todos partiram para carreiras solos. João Ricardo, em 1978 ainda tentou reativar o grupo, mas sem obter sucesso. Ney manteve sua popularidade como showman até os dias de hoje, apesar de não ter feito mais nenhum material transgressor como na época do Secos. Já Gérson Conrad, preferiu o anonimato.
Passados quase 40 anos do “rebuliço” promovido por esses alienígenas travestidos de homens, fica a certeza de sua importância para a música e o espetáculo, afinal eles revestiram de cultura pop a arte censurada da época, gerando debate e encanto em todas as classes sociais, com lindas músicas de poesia política e social. A marca da ruptura causada pelo grupo consiste na ideia de que se pode fazer algo com qualidade de música e texto e ser extremamente vendável e popular. E mesmo em um tempo de tantas porcarias, que apelam quase sempre para “danças de bundinha”, que vendem milhões e fazem milhões imitarem os passos como “macacos adestrados”, o som dos Secos e Molhados é a prova de que arte com qualidade nunca fica datada.
“...beber o possível/
sugar o seio da impossibilidade/
até que brote o sangue/
dessa terra morta/
desse povo triste. (O Doce e o Amargo) * Versão de texto publicado originalmente no jornal Minuano