Por mais máquina tenha se tornado a humanidade, mais abissal é o mergulho do homem em sua decadência como ser pensante. Não se contempla a eficiência racional idolatrada como o fim das mazelas e das patologias causadas pelo homem “animal”, mas, sim, observamos o contrário: a falência da própria sociedade planejada pelo capital.
E isso é explícito quando as glórias do progresso tornaram o homem livre de sua condição meramente coletiva, pulsando-o ativo para tecer posições políticas; para defender seus direitos e fazer de si elemento individual próprio e, também, para a manutenção de uma sociedade democrática – o que supostamente se daria com a luz da razão num sistema harmonioso para todos os demais – contudo, criou-se o avesso: uma ilusão sustentada pelo modus operandi da tecnologia, de que o homem é um ser livre, racional e independente. Mas se é exultada tal “realidade”, como responder aos indícios que apresentam um homem ainda primitivo em inúmeros aspectos.
Esses paradoxos são facilmente notados, basta abrir um jornal, ou quem sabe um e-mail e ler as últimas notícias: de um lado as praticidades de uma vida mais ele se enraíza em sua condição animalesca, mostrando com todos os argumentos, o quão bárbaro pode resultar a dependência com as ilusões de progresso.
O Iluminismo que teceu os movimentos das sociedades progressistas nos últimos séculos fracassou. Geramos uma idéia falsa de que o futuro seria conquistado com base no progresso tecnológico.
Se todos os homens, hoje, idealizam, de certa maneira, serem idênticos em sucesso, porque nascem impelidos a buscarem tal receita para a própria história que dela desejam fazer parte, imagine a revolta que se instala no coração daqueles que nada podem fazer para seguir esse caminho dourado que é tão bem vendido aos olhos desejosos?
Pois pensemos na idéia do progresso, da opulência econômica, de todo o poder de status, entre outros símbolos, que empregados nesse texto, auxiliam para que se traduza de forma fiel na “bandeira” erguida de que a felicidade está na garantia para uma confortável vida passiva, onde possamos gozar de todos os luxos e luxúrias conquistadas. Assim, proclama a máquina! Ela que simula com o virtual, a vida sem tempo e finitude; a graça maior de vencer o inimigo de tudo que nasceu no ontem; a virtude dos eleitos; a honra dos capazes em fazer a história, os heróicos vencedores, àqueles que não se limitam e que se distanciam da mísera existência como estatística, o que resulta em uma acentuada degradação moral dos seres simplórios em enquadramentos e limites determinados pela sociedade atual.
Essa sociedade vive por simulacros, alguns como o da “eternidade” realizado pela proposta antimatéria da tecnologia do espaço virtual, que passa a ser a criadora de nova esfera pública. Portanto, a própria noção do privado está enterrada. A vida com o status de “vida tecnológica” só se torna real se exibida aos demais. Dessa forma, vive-se pela importância dos momentos publicados e recortados em uma realidade midiatizada. Essa é a proposta das novas possibilidades tecnológicas da mídia: a espetacularização da existência banal elevada ao excesso dionisíaco de viver apenas o presente, subjugando propostas e contestações políticas ao “cárcere” de debates sem atitudes, ou deixando o “fazer política” preso em pequenos rincões atrelados a radicalismos datados, por vezes empregados apenas como moda.
Por isso, estamos vivendo num momento chave: ainda não entendemos a condição social que está a ser estabelecida diariamente em um mundo sem fronteiras e de personalidades transitórias.
Estamos perdidos em rotas que não existem de fato, porque são todas simulações de uma vida representada artificialmente. Somos transeuntes de caminhos limitados pelo fim da imaginação. A passividade está sendo divulgada como ato natural para a sociedade, conseqüentemente até pensar torna-se um fardo, segundo as novas regras sociais.
Porém, fica a necessidade do debate. Pense no atual estado letárgico da sociedade.
É uma sociedade estabelecida em discursos de instituições “arcaicas” perante o mundo atual. Afinal, o que temos é uma sociedade fragmentada e definida apenas pelo consumo. Se ela se sustenta nesse vazio, torna-se explicito que o desejo reprimido e o já conhecido “mal estar”, que tanto Freud nos mostrou, agora condicionado e multiplicado para todos aqueles que nada podem, nada tem ou nada farão para aplacar esse sentido tão bem estimulado, defina a vida com um imenso vazio existencial.
Pode se observar, assim, a humanidade pela representação de uma sociedade de “colecionadores”. Caracterizados pela ordem da posse, a única forma de diferenciação é através do consumo. Contudo, nesse esquema de relação do homem com a matéria, quanto mais se consome, mais aumenta seu vazio. De certa forma, a existência torna-se moldada através dos utensílios que definem a identidade formada de um indivíduo. A personalidade de alguém, hoje, é atribuída pelo que ouve, lê, ou assiste, porém para isso é necessário “exultar” que detém tais conhecimentos; melhor ainda se exibi-los caracterizando-se pertencente a uma tribo, grupo ou comunidade específica.
É uma sociedade sem territórios, formada por colecionadores de objetos, palavras e símbolos afins, que apresentam um tempo sem mais ideologias ou utopias delirantes, apenas a necessidade incessante do prazer, o prazer de comprar e ostentar o viver, tudo nesse aqui e nesse agora.
Nesse tempo de ter apenas o tempo presente, podemos trazer como exemplo para ilustrar esse texto a figura de um colecionador de livros que se entrega ao deleite da conquista e da posse de um livro raro. O desejo de possui-lo tal como se conquistasse o mundo inteiro, dissipa-se e vira o avesso do prazer, quando, em seguida, encerra esse estado de êxtase. Esse estado absurdo de viver sentindo um imenso vazio proporciona a comparação com a deformação de consciência de um viciado. De fato, é uma realidade contemplada por colecionadores e viciados.
Se o colecionador adquire milhares de utensílios e produtos do mesmo estilo ou ordem, é porque ele necessita se ver representado naquela coleção. Quanto mais produtos ele tiver, maior será a coleção. Mesmo que no caso de livros, por exemplo, não consiga ler todos os títulos, os exibirá como se todo aquele montante em sua biblioteca fosse o retrato fiel e majestoso de sua identidade. Daí a idéia da busca incessante por mais e mais obras à sua coleção, ele precisa manter sua identidade, ou seu ego, sempre acima dos demais, para que não caia no drama de se sentir menor, inferiorizado, tanto que esse sentimento também é favorável ao ego, visto que a dor de estar aquém dos demais vai proporcionar que a compulsão seja encarada como necessidade psicológica para que volte a consumir, mais e mais. Assim, se equivale como o viciado que pretende suprir com outra dose, a sua vontade de não sentir mais a angústia da ausência da droga.
Oferecer a negação desse vazio é o trunfo da publicidade! Esse é o método de criar a magia, a ilusão, a forma eficaz de vender utilitários que proclamem o homem herói de seu tempo, sempre encantado e feliz com o que possui.
O “ser vazio” que se alimenta das ilusões para tentar, num mosaico de si mesmo, juntar pedaços de outros seres definindo-se como humano e perfeito; dotado de bens; dotado de vida eterna pelas arestas do ciberespaço sem limites, é o retrato fiel do cidadão consumidor: alguém que vive pela insatisfação incessante do ego.
Nietzsche exigia que se constatasse a crise na sociedade humana. Essa era a única possibilidade de engendrar um novo pensar de sociedade. Compreender a falência de todas as “verdades” daria condições de observarmos a vida que se apresenta. A negação dessa constatação demonstraria a inutilidade do pensar, sendo que o próprio ato de pensar também estaria fadado ao fracasso.
Se ele denunciou que o “esvaziamento” de valores autênticos levaria à barbárie e a própria destruição da moral e dignidade humana, talvez seja tempo de aceitar a condição atual: já estamos vivendo o vazio maior e como humanos passamos a existir na condição de meros colecionadores de vícios diários.